Era um sábado de manhã cedo, ainda escuro, quando saí de casa de bike para um treino longo pela cidade. No caminho, parei num semáforo ao lado de um grupo de ciclistas com roupas de time, equipamentos caros, bikes de carbono. Ninguém me cumprimentou. Quando o sinal abriu, um deles olhou para mim, não para a minha bike, não para o meu kit, olhou para mim com aquela expressão que a gente aprende a reconhecer antes mesmo de ter nome pra ela. Continuei pedalando.
Esse momento não é sobre mim sentindo falta de um "bom dia". É sobre o que acontece quando um esporte inteiro constrói sua identidade visual, seus eventos, seus patrocinadores e suas narrativas ao redor de um tipo específico de corpo, de rosto, de história, e trata tudo isso como se fosse simplesmente a ordem natural das coisas. O ciclismo no Brasil tem um problema de representação. E ignorar isso é uma escolha política tanto quanto enfrentá-lo.
O Esporte Como Espelho da Sociedade
Ciclismo nunca foi neutro. No Brasil, o acesso a bikes de qualidade, a grupos de treino, a provas federadas, tudo isso segue as mesmas linhas de raça e classe que estruturam o país inteiro. Uma bike de entrada para treino competitivo custa o equivalente a quatro salários mínimos. Um kit de time, mais dois. Isso não é coincidência de mercado. É exclusão com cara de catálogo.
Quando olho para o pelotão nas grandes provas amadoras do país, o que vejo confirma o que os números já dizem: a maioria dos corpos que pedala com visibilidade, com patrocínio, com cobertura de mídia, é branca. Não porque negros não pedalam. Pedalamos. Mas porque os espaços que conferem legitimidade dentro do esporte foram construídos sem nós, e muitas vezes continuam operando como se nossa ausência fosse natural.
O Team Africa Rising, equipe ciclística africana que ganhou atenção internacional, mostrou algo importante: quando você cria infraestrutura de desenvolvimento para atletas negros, os talentos aparecem. Sempre estiveram lá. A questão nunca foi capacidade. Foi acesso, visibilidade e a crença coletiva de que aquele espaço também pertencia a nós.
Representação não é cota nem favor. É o reconhecimento de que quando as imagens de um esporte nunca incluem você, a mensagem que chega para a criança negra na periferia é clara: esse lugar não é seu.
DePretoPraPreto: Estética Como Estratégia
Fundei a DePretoPraPreto em 2022 com uma pergunta simples na cabeça: por que não existe uma marca de ciclismo que reflita a beleza e a excelência negra brasileira? Não como nicho, não como produto de datas comemorativas, como identidade central, como ponto de partida.
A resposta que encontrei foi que as marcas existentes nunca precisaram se fazer essa pergunta. O mercado padrão funcionava para elas. Criar a DePretoPraPreto foi reconhecer que esperar ser incluído num mercado que não foi construído para te incluir é uma estratégia perdedora.
Os kits da marca carregam referências estéticas da cultura afro-brasileira. Não como decoração, como declaração. Quando um ciclista negro veste aquele jersey e entra num grupo ride, ele não está só pedalando. Ele ocupa um espaço com uma afirmação de pertencimento que o simples ato de existir naquele pelotão já comunica antes de qualquer palavra.
Levar a marca para a Feira Preta foi um passo natural. Ali, no maior festival de cultura negra do Brasil, o ciclismo encontrou o seu contexto real: não como esporte de elite importado, mas como movimento urbano, como expressão de liberdade, como parte de uma conversa maior sobre quem tem direito à cidade e ao próprio corpo em movimento.
Pedalar É Um Ato, Não Só Um Exercício
Trabalho com segurança de dados e governança de IA. Passo boa parte da minha semana pensando em como organizações globais protegem informações sensíveis, constroem confiança com seus usuários, tomam decisões com dados. É um trabalho técnico, estratégico, que acontece em salas virtuais com engenheiros de três continentes.
Mas quando enfio o kit e saio de bike pelas ruas de São Paulo às 5h30 da manhã, não estou deixando esse universo para trás. Estou carregando a mesma lógica: sistemas excluem por design ou incluem por design. Não existe neutralidade. Cada escolha de representação, de alocação de recurso, de quem aparece em qual imagem, é uma decisão com consequências reais.
O ciclismo negro no Brasil cresce. Grupos como o Pedal Afro, iniciativas que conectam periferias ao esporte, jovens que aparecem em provas com bikes montadas e manutenção feita por eles mesmos, tudo isso pulsa. Não porque alguém autorizou. Porque o movimento se faz pedalando.
Naquele sábado, depois que o grupo de ciclistas seguiu em frente, continuei o meu treino. Completei os quilômetros, voltei pra casa com as pernas pesadas e a cabeça tranquila. O semáforo ficou pra trás. A pergunta que ele deixou, sobre quem pertence a quais espaços e quem decide isso, ainda pedala comigo.